quinta-feira, dezembro 15, 2011

natal

-Este ano também chega o Natal?
Pergunta o menino.
Há ruas e montras iluminadas,
há o fato de um senhor barrigudo,
de brancas barbas e grave riso
que premeia os meninos com juízo.

-Parece que sim.
Diz o pai que tudo sabe.
Que sabe que há séculos, indigente,
entre palhas e com uma estrela por luz,
pregando o amor a toda a gente,
sem roupas, nasceu Jesus.
-O Natal é para sempre.

quinta-feira, novembro 17, 2011

fatiotas

A vida surpreende-me na escolha que faz das linhas com que se cose. E não há rasgão que lhe sobreviva na sua ânsia toda costureira. Cerzindo e remendando. Transformando trapos e farrapos em cordões. Uns com eles se enforcam outros com eles se enfeitam. Outros, ainda, ao cenário se ajeitam, mais vestidos, menos despidos, mais ao léu, mais à moda. A vida, essa, anda à roda entretida, confeccionando divertida muitas e muitas fatiotas. É a moda. São os janotas: mais ou menos idiotas, já se vê!

quinta-feira, outubro 27, 2011

tão frágeis

Chegou o tempo da escrita. Vem com a chuva e com o vento forte. As palavras assobiam amor e frio e vestem agasalhos. É vê-las passar de sombrinha e cachecol. Lembram bonecos de pelúcia rechonchudos ou almofadas de penas. São coisas pequenas e frágeis feitas para o carinho de quem as ama. Como eu amo as palavras! Gosto do seu som e divirto-me a juntá-las. Embalam-me o sono e o dia, vestem-me os ouvidos com a sua suavidade. Contemplo-as em frases que ressaltam nas vidraças. Largando mensagens e provocações, numa sensualidade que transcende quem as usa. Passo horas silenciosas a vê-las crescer e ganhar contornos. Um dia hei-de usá-las de uma forma completa. Hão-de sair de mim como sempre quis: interminável torrente de poesia.

segunda-feira, outubro 17, 2011

coisas simples

Há uma incontornável ternura em adormecer abraçado enquanto se espera a embriaguez do sono. Surpreendente como a liberdade se manifesta na corrente de dois corpos apertados e não na vastidão de uma cama vazia. As essências concentram-se em espaços confinados. Revelam-se, afinal, tão acessíveis. A modéstia do desejo, do ardor, transporta-nos muito para lá do que um dia acreditámos ser possível. Porque a nossa razão jamais alcançará certos voos. E só quando logramos perdê-la realizamos quão redutora é a sua dimensão.

stuart staples

Há sinos vibrantes na voz deste senhor.

segunda-feira, setembro 26, 2011

muda-se o ser

Há uma fénix que ressurge de um corpo acarinhado. Nasce-se e renasce-se várias vezes numa só vida. Um toque de magia. Um elixir perfeito. Uma perceptível mudança esta que nos traz o amor.

mudam-se as vontades

A vontade de voltar a casa. A certeza de alguém que me espera. A vontade de parar o tempo com receio que passe depressa. E dizer que tudo me estava guardado. Ao alcance dos meus desejos e da minha realidade. A incoerência de tanta simplicidade. De como a felicidade está por vezes mesmo ao dobrar da esquina.

mudam-se os tempos

Tanto tempo. Tanta coisa. Tanto de mim e de outros. Confidências, mudanças, desesperos, fracassos e vitórias. Se vos dissesse que afinal a vida muda mesmo num segundo. Se vos confessasse a verdade da porta cerrada e da janela que se abre. Tanto poder nas nossas mãos. E a fé. A força inexplicável da fé.

domingo, abril 03, 2011

a time for everything

Até um tempo para desistir.

quarta-feira, março 30, 2011

nem tudo como antes

Aqui pelo estaminé onde presto serviço, resolveram misteriosamente devolver-nos o acesso aos blogs e ao youtube mas, em troca, nada de sites de jogos. Snif, snif... Desconheço se se trata de uma moda rotativa, ao estilo agora podes amanhã já não, uma estranha compensação pelos cortes nos vencimentos ou apenas uma temporária distracção. Infelizmente não consigo comentar ou devolver respostas aos comentários e, por isso, nem tudo está como antes. Fiquei sinceramente comovida com a minha primeira (e única) visita por parte do a-bordo (uau! ainda sei fazer linques!) e, impotente para devolver a cortesia pelos meios tradicionais, aqui fica o meu obrigado em forma de post. Se mais alguém aqui voltar, por favor não se sinta melindrado com o meu silêncio. É um silêncio imposto pela ordem monástica que diariamente me rapta para prestação de trabalho escravo e ao qual ninguém me perguntou se queria aderir. Ao cabo e ao resto, e após o crime confesso de só postar em tempo de serviço, poderia acrescentar algumas poucas palavras sobre o que penso desta política informática castradora mas devo evitar emocionar-me em demasia. Sem acesso aos jogos de point and click (os meus favoritos), sinto-me como os mercados mas, infelizmente, só estes preocupam toda a gente quando andam desmotivados.
Queiram avisar-me, suplico-vos, caso seja lançado um novo submachine ou daymare town...

terça-feira, março 29, 2011

compondo

Calço as luvas de pelica para manipular, novamente, as palavras. Evito impressões digitais. Marcas indesmentíveis que me identifiquem por entre a multidão. Que pretensão ousar qualquer unicidade na minha escrita! Se os músicos perseguem uma marca inconfundível, misturando cordas, sopros, teclas, precursão e voz, que reduzido é, por comparação, este léxico de que disponho. Jamais as reticências soarão como um violino, no momento preciso em que a última nota morre já no parto do silêncio. Quando a doçura do som e a paz da sua ausência, se reúnem no derradeiro acorde. Se há poemas que são sinfonias ou, ao menos, breves nocturnos, quisera eu alcançar tão divina sublimação. Misturar letras, pontos e ditongos, e na mais íntima leitura, poder fazer chegar uma melodia. No inesperado ribombar de um til, trazer a chuva numa sucessão de sibilantes, e deixar que o desmaio num regato se fizesse entre is e às de fresco espanto.

terça-feira, julho 07, 2009

apelo

Hoje adormeço mais feliz. Consegui arranjar uma casa para uma linda gatinha abandonada de pêlo creme e fantásticos olhos azuis. Falta-me dono para o orelhas... gatinho preto muito, muito meigo e dono de umas fantásticas orelhas arrebitadas. Alguém precisa de um amigo?

quinta-feira, junho 18, 2009

ignorância

Cultivar a rendição. Perceber no corpo a possibilidade do vôo livre através do desapego. A agricultura da vida medra em solo frágil e o amor é o adubo biológico em tempos de guerra química. As sementes da paz fazem o pão consagrado à salvação e a ceia não é só dos escolhidos mas dos aleatoriamente sobreviventes. Nem só os bons. Nem só os iluminados. Sentar-nos-emos à mesa e olhar-nos-emos curiosos perante a perplexidade da escolha. Como antes - o justo e o ladrão. Bastará porventura o arrependimento?
Quem dera não houvessem inevitabilidades e o percurso do crescimento fosse conduta de água cristalina isenta de sangue e dor. Nem a verdade nem a lógica. Nenhuma me é dado alcançar. Como a dança do junco rendido ao vento que abraça a divina transparência que o faz balouçar. Que sabedoria tão plena é esta que conjuga a aceitação com o conhecimento? Como poderei eu alcançá-la?

quinta-feira, junho 04, 2009

modas, impedimentos e teoria da conspiração

Os já não tão jovens leitores que, como eu, pertencem à categoria dos entinhas, recordar-se-ão por certo de que, quando éramos miúdos, se praticava com fervor e quase displicência a amigdalectomia. Por dá aquela palha, zuca! Extraíam as amígdalas ao pessoal miúdo que assim se via em casa a papar gelados com fartura. Eu, por sorte ou infortúnio, padeci de amigdalites em série, com direito a injecções regulares de penicilina - a célebre trilogia do penadur - febrões e outros incómodos associados sem que o meu pediatra se comovesse e me enviasse à faca. Dizia ele - creio hoje que pleno de razão e sabedoria - que se cá estavam é porque faziam falta, funcionavam como filtro para que a infecção não descesse goela abaixo indo provocar inflamação em zonas mais internas e de difícil cura. Estes eram os tempos e as modas.
Dá-se agora o caso de, no outro dia, ter sido atacada por mais uma dor insuportável provocada por uma crise de vesícula. Interrompi os meus trabalhos de diligente funcionária e dirigi-me ao centro de saúde. Fui atendida com bastante prontidão e revisitei a maca onde, já no ano transacto, estive igualmente estendida pelo mesmo motivo a receber soro com analgésico. Após meia hora de chuto para a veia, fui de novo à médica que me confronta com a sua solução para o problema:
- Ouça, porque é que não vai agora mesmo para o Hospital para lhe tirarem a vesícula? Isso não está aí a fazer nada! É uma intervenção facílima e amanhã já está em casa.
Lá lhe expliquei que não podia, que não me dava jeito e que, na verdade, tinha de me despachar para ir buscar a minha filha à escola.
A médica olhava para mim estupefacta, como se não fosse credível que alguém perante tão maravilhosa proposta de intervenção cirúrgica, preferisse ir buscar a filha à escola. Consegui safar-me, fui buscar a miúda, fui para casa fazer o jantar e a pensar com os meus botões que àquela hora podia estar repimpada numa cama asséptica, a ser escortanhada por um qualquer cirurgião provavelmente sem direito a exames prévios que apurassem da necessidade da extracção do órgão em causa.
Estou convicta que isto há-de ser uma questão de modas. Da velhinha amigdalectomia passámos com igual paixão e vigor para a colecistectomia videolaparoscópica. Uns furinhos e já está!
Para terminar, cingindo-me com rigor à enumeração em título, falta-me a referência à teoria da conspiração. Que fazem os hospitais com tanta vesícula abortada? Quem ganha com isto? Neste País alternativo nenhuma hipótese é de descurar e receio que a minha pobre vesícula pudesse estar hoje a ser exportada através de alguma suspeita rede de tráfico vesicular. Com que fim? Sei lá eu, mas aposto que há-de uma nova iguaria requintada para esses gastrónomos destemperados e sedentos de novidades que são os asiáticos! Ufa!

terça-feira, junho 02, 2009

crónica

Nada há no dia-a-dia que se conte. Não há história, nem memória ou poema. Talvez uma ténue lógica de crescimento, de (re) evolução. Porque volto então? Nem a saudade, nem a pena ou a nostalgia. Porventura o medo de me esquecer do que em tempos me identificou. Ou a curiosidade de perceber o que ainda me define. Sou a que tentou de forma fútil tantos caminhos, sem a maturidade para os amadurecer com seriedade. A que ficou pela rama das escolhas por nunca ter encontrado senão um fugaz entusiasmo. Aquela em quem reina a doentia preguiça, a indolente apatia dos que nada sabem fazer. Fugiram-me os sonhos ou troquei-os a baixo preço pelo vencimento mensal. E nem sequer me pesa nada disto. Porque nem sonho algum chegou verdadeiramente a fazer-me suspirar. As metas, mais que luta, exigem persistência, férrea vontade, duro trabalho. Sou a funcionária do sentimentalismo em horário flexível e preencho o vazio com mais vazio até que os dias se entupam de rotina e me ceguem definitivamente os horizontes. Matei os neurónios e as promissoras potencialidades com comezinhas desculpas e enfadonhas historietas de amor e vida. Atrapalhavam-me as ideias e a complexidade dos pensamentos. Dificultavam-me a morte precoce e o letal entorpecimento da sobrevivência. Os que não se finaram afogados esbracejam, ainda, neste estertor.