quarta-feira, outubro 18, 2006

conversa de pé de orelha

Deixa-me lá contar-te como vejo as coisas para além da história da presa e do caçador. Percebo bem a dura ferroada do animal que sofre, tanto quanto abomino o vitorioso espanejar das penas de um pavão. Posso até entender o rastejar de um animal ferido de morte, mas admiro o que a afronta de pé. Prefiro a prontidão de um tiro misericordioso, porque gosto que me brindem com essa dignidade. Depois é só juntar as peças et voilá! As marés são circulares e passamos de novo onde partimos. Molhamos os pés nas águas que poluímos, fraquejamos hoje junto de quem ontem desprezámos. Um dia usaremos a bengala de que troçámos e por isso não há que usá-la como bastão. A história do cuspo para o alto e da cabeça na qual aterra. Por isso nunca me rio, ainda que se hajam rido de mim. Tenho na memória algumas palavras, não por despeito mas à cautela da tentação de alimentar o eterno retorno. Daí a virtude do silêncio. É como vês, hoje não é mais que esta conversa de esplanada. Insignificâncias de pé de orelha. Não ouso futorologias nem posso proibir a ironia de qualquer destino. Adoço antes a saudade das minhas mãos nos teus cabelos.

3 Comments:

Blogger ikivuku said...

Há uma altura para troçar da bengala e outra para usar a bengala. E não existe nenhuma correlação entre uma e outra, a não ser uma hipotética sensação de culpa. Não vale a pena aprender a usar a bengala quando ainda não é precisa. Mas a sabedoria verdadeira é continuar a troçar da bengala quando já não se consegue andar sem ela.

4:23 da tarde  
Blogger vague said...

esta é a bastet frontal honesta de cabeça direita que eu conheço e admiro

princípios!
minha querida, que tu segues e praticas e não escreves apenas

há tanta falta deles.

8:05 da tarde  
Blogger andorinha said...

Muito raramente comento, mas é sempre com prazer que te leio.
Concordo com ikivuku, é essencial nunca perdermos a capacidade de nos rirmos de nós próprios.

10:11 da tarde  

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