a morte vem depois
Gostaria de saber improvisar a minha morte - disse-lhe ela acreditando na sua solenidade. Quanto muito o silêncio é a aproximação que lhe temos e sabemos como cortá-lo às fatias. A caneta que cai ao chão ou o botão da rádio que se liga. É o último segundo de um segundo de vida. Gostaria que fosse um suspiro tranquilo como quando adormeço ao teu colo. Ficaria no ar esse sopro como fica molhada a tua camisa com a minha saliva. Assim seria senhora do além por momentos que fosse. E dirás tu que isto é o contrário do improviso. Mas não é. Acredito que só seja possível perceber esse instante no instante precedente, quando só nos resta um ápice ao último acto. É então que se define a cena, quando já não sobra tempo para seguir o guião à risca. Define-se para sempre a qualidade do actor. Põe-se em risco a personagem, desmascara-se a pessoa. Ou se unem ou se separam irremediavelmente. Há-de haver mortes que não servem certas vidas, como há fins que não servem certos filmes. É talvez a minha aspiração à harmonia. A última nota, um suave desmaio que se prevê mas não se conhece. É a essa nota que me reporto, a que se prolonga ousadamente numa pausa que sabemos interminável. A morte vem depois mas fica prenha desse gesto. Como num acto de amor em que ao orgasmo antecede um grito ou a mudez que me conheces. Gostaria que me lembrasses assim, como a água que te molha as coxas. Um perfume perene e sóbrio que nos surpreende por ser o cheiro que sempre achámos ter a vida.
6 Comments:
Um belo texto.
A mostrar mais uma escritora de talento.
Que em toda a blogosfera dificilmente preenchem os dedos de uma mão.
CSD
:) puxa! Ó para mim babada! Obrigada Cláudia! E foi bom saber pelo comentário no post abaixo que o meu enxoval também te agrada! :)*
já te tinha dito que gosto de ler.te... muitoooooo mesmo...sempre
jocas maradas de palavras
Também gostei deste texto. E lembro-me que Nietzsche disse qualquer coisa como isto: o que é preciso não é suportar ou aceitar a morte, mas morrer no momento certo.
Também gosto de finais felizes... :)
E quantas vezes não improvisámos já qualquer coisa que, no derradeiro momento, se modifica... não, não poderiamos improvisar o extremo. Há-de ser sempre o inesperado...
Baci
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