quarta-feira, junho 21, 2006

este meu filho

Qual é a evidência de uma realidade que não me serve? Onde guardo a esperança perante a nudez dos factos? Procurem no chão pelos meus pés e na avenida pelo meu sonho. Saiu de mim solitário e fez-se à estrada. Esporadicamente pousa nesta terra quando frágil. Retempera-se e foge depois. Alguém tem que ficar por aqui. A quem volta um sonho cansado? Sou a mãe deste filho imaginário. Já me dói a sua dor mas não evito reanimá-lo. Cheguei a dizer-lhe que não valia a pena mas olhou-me destroçado. Porque corre uma quimera? Quando olho o que me fica, conheço melhor a verdade. Ou talvez seja a sua ausência que me cristaliza. Chegámos a jurar juntos uma derradeira viagem enquanto lhe afagava os cabelos de vento e lhe punha um beijo no voo. Era a última aposta e saiu fracassada. Temos que tentar outra vez ! – Que mais pode um corpo dizer ao seu sonho? E ele assentiu. É da sua essência ser assim. Não lhe chamaria força nem coragem. Poderia ser desespero, mas não o é. E não é muitas outras coisas. É o que é – um sonho. Quando dou por mim sem ele fico mais lúcida e, ele que me perdoe, quase desejo que não volte mas à medida que o vazio se instala, tão sórdido, tão frio, percebo que estou incompleta e vou à varanda esperar o seu regresso. Sei o que ele me faz. Que me empurra o dorso para a frente e me enche o peito de ar. Traz-me um espelho que me faz diferente. Erguem-se-me os pés das ruelas e calcorrilho pontões à beira mar. É com ele que me sento a ver o por do sol e sobretudo as madrugadas. Sussurra-me baixinho as alegrias vindouras e eu, comovida, acredito que não me mente. E nele não há mentira. Aprendi a diferença entre o falso e a fantasia quando perlava de lágrimas o meu desencanto e lhe adivinhava uma ferida maior. Mortifica-me quando me falha mas sei lá eu viver sem ele? Pode lá uma mãe viver sem o seu filho? Sei que voltará constantemente à minha casa a anunciar-me a Primavera até ao dia em que o Inverno seja maior e a lei da natureza o arranque do meu sopro.

6 Comments:

Blogger Zu said...

Os sonhos temperam a vida, não achas? E são uma boa meta para procurarmos alcançar; ou apenas para sorrir e sonhar.
Beijo cheio de saudades.

8:46 da tarde  
Blogger Bastet said...

São sim Zu e calcula tu que já vou tendo o snho de te voltar a pôr a vista em cima! Um beijo muito grande para ti e outro para a Miósotis.

11:03 da tarde  
Blogger jp said...

mau, que história é essa do espelho?
o teu armário só tem trapos inconscientes ;-)

12:29 da manhã  
Blogger batista filho said...

"Onde guardo a esperança perante a nudez dos factos?"

Amiga, o ideal mesmo é não guardá-la: é deixá-la escorrer pelos poros, para que façamos frente "à nudez dos factos",às vicissitudes cotidianas...

Pra lá do comentário acima, estás cada vez mais afiada com as palavras!!!

4:14 da manhã  
Blogger Bastet said...

Nem só JP mas tem muitos :)

Obrigada Batista, por cá vou amolando as palavras para que se aguçem no papel :)*

11:18 da manhã  
Blogger Pecaaas said...

"Uma Mãe viver sem o seu filho, não é viver.....
bj
Pedro

1:38 da manhã  

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