sexta-feira, abril 28, 2006

mudas conversas

Não sei mais o que te diga. Já que apesar de escutares os meus silêncios tens medo de os substituíres por palavras. Por outro lado, por mais que te dissesse, nada justifica o que acontece como se acontecesse de repente, e a mim já me cansa a explicação do desenrolar dos processos. Depois, há coisas que não morrem, sobretudo quando não nos esforçamos por lhes esvaziarmos o sentido ou por lhes darmos uma outra vida. É claro que há muito mais para além do que te digo. Há sempre reticências em qualquer ponto final. E é sempre possível prolongar o estertor até que se quede rouco. Poderia tentar falar-te de como não pudeste renascer mas entenderias como acusação o que mais não é que uma verdade exigente, e ambos sabemos como não é fácil viver com a verdade nem com as exigências. Mas podemos ainda calar-nos e deixar que o vazio nos embruteça até à aceitação do nada, arriscando o que sobra de nós. Que sei eu de todos os momentos, se já me esquece a importância que lhes dei, anestesiados pela sucessão dos dias? Nem quero saber das causas. Nem quero saber da dor que se repete. Prefiro a centelha de lucidez que me sobra. A reserva de qualquer coisa residente que me enternece. A sabedoria de todas as minhas culpas. Talvez seja melhor acreditar que sempre soubemos dos intervalos do nosso tempo. Dos espaços de sobrevivência mútua. Desde que não me recordes das promessas, não se quebrará este meigo paliativo. Entre as nossas mudas conversas ficou sempre o meu discurso que não pudeste perceber.

12 Comments:

Blogger Barão d'Holbster said...

Também gosto das cores dos papagaios, mas fazem muito barulho e dizem pouco... É assim muitas vezes, muito ruído, pouco conteúdo...

12:16 da manhã  
Blogger SGC said...

Numerais,déficits, superavits...
(Mas as outras gestões exigem orçamentos nem sempre exequíveis...)
*

1:10 da manhã  
Blogger Bastet said...

Verdade Barão, verdade. :)*

SGC, falta-me o capital para certos investimentos, é o que é! :)*

10:30 da manhã  
Blogger Elipse said...

Mais difícil do que interpretar palavras é interpretar silêncios.
Mas tudo é interpretação. Nada é rigorosamente verdade. às vezes nem para nós.

11:25 da manhã  
Blogger SGC said...

Bastet,
Há certos captiais que nunca entram em recessão...
(Ou a formulação da não-morte?)
*

11:25 da tarde  
Blogger Bastet said...

Na verdade Elipse há muitos silêncios que sabemos interpretar mas que preferimos fingir não perceber. Mas concordo. Antes as palavras.

SGC: há capitais de facto que nunca entram em recessão, há é investimentos que já sabemos não serem rentáveis ;)

11:23 da tarde  
Blogger gaivina said...

Fiquei com a ideia que poderia bem ter dito estas mesmas palavras, em certos momentos da minha vida... Claro que, não tão bem escritas...
Complicada a comunicação com o outro....

1:54 da tarde  
Blogger Bastet said...

Olá Gaivina é bom saber que a tua voz fez fuga para aqui! E sim, como são complicadas as comunicações com o outro quando tudo poderia indiciar que deveriam ser as mais simples. Um beijo. :)*

10:55 da manhã  
Blogger adesenhar said...

..."Entre as nossas mudas conversas ficou sempre o meu discurso que não pudeste perceber."
Muita parra, pouca uva...

acontecem com frequência as "mudas conversas"...

:)
bjs

4:13 da tarde  
Blogger Hipatia said...

"Entre as nossas mudas conversas ficou sempre o meu discurso que não pudeste perceber."

Ah porra! Mas tu às vezes dizes umas que... issa! :S

11:01 da tarde  
Blogger batista filho said...

Nos blogs lemos muita coisa. Visitamo-nos, tecemos críticas, na maioria das vezes elogiosas. Nem todos os textos poderiam ser classificados como literários, até porque, em parte são desabafos, quase páginas de um diário - em prosa ou verso -, sem maior pretensão que a de estabelecer laços com pessoas d'outras regiões e/ou culturas, etc.

Alguns textos, porém, são diferentes, tocando-nos de tal forma a nos deixar encantados: seja pela sensibilidade ou a razão.
É o caso presente. Parabéns!

12:59 da tarde  
Blogger Bastet said...

adesenhar: acontecem pois! mais vezes que o desejável... Um beijo para ti amigo :)*

Ora, Hip até parece que não me conheces!

Batista Filho: Muito obrigada pelo teu comentário. Gosto muito de escrever não sei se mais ou menos do que aquilo que gosto de sentir que as minhas palavras tocam os outros de forma positiva. Por isso a importãncia de que se reveste o feed-back dos comentários. Obrigada mais uma vez. E um beijo.

10:50 da manhã  

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