terça-feira, março 28, 2006

morreram-me as palavras

Estou em crer que as palavras me morreram. Ponho-as no branco e ficam brancas, mais pálidas que o meu desejo de fazer qualquer coisa acontecer. E porque elas vêm de mim, ou de parte de mim, nada em mim agora renasce. Sinto-as atrofiar em vocábulos minimalistas, grãos de pó. Ao pó a que também as palavras tornam com a morte. Em fragmentos de poeira, vejo-as voar mais alto que o impulso que lhes dava, quando tentava fazê-las subir aos meus tontos pensamentos, flamejando-as de amor e mágoa, para as servir depois em risos ou prantos. Estou certa que as palavras me morreram, porque conheço o berço de onde provinham titubeantes, aprendizes de falas e versos e que, quando lidas, me soavam a cantigas do meu mal ou bem dizer. Morreram-me as palavras e sinto-me despida sem elas, sem saber preencher os vagos espaços onde as encavalitava por prazer. Sou menos sem elas. Sou parte de mim apenas. Amputada da fome que lhes tinha, apodrecem-me bolorentas como se lhes fosse indiferente. Estou ainda aqui dedilhando sem alegria as que me restam. Sentindo a falta do turbilhão que antes me queimava de avidez e febre, não reconheço a minha escrita. É-me exterior, rigorosa no medo do intérprete que sem alma ou jeito, acompanha em marteladas de piano, a missa provinciana num qualquer Domingo. Este é o testemunho do meu luto.

25 Comments:

Blogger Hipatia said...

As palavras não morrem. Podem quedar-se mudas. Só isso.

4:59 da tarde  
Blogger forass said...

Tu já andavas a ameaçar...!

5:21 da tarde  
Blogger Mocho Falante said...

olha lá o que é que isso quer dizer pá????

Bom vamos lá ver....

Não te preocupes que é impossivel as palavras morrerem porque elas alimentam-se no talento da tua escrita

beijocas

5:54 da tarde  
Blogger a-bordo said...

... esta balada, a sua música, só podem levar-me a dizer: morrendo desse modo as palavras, não morrem, levedam para nova - espero que rápida - reencarnação... um beijo

10:38 da tarde  
Blogger SGC said...

( o Estetoscópio, a Lupa e a minha retina)
Não lhe morreram... ;-)
*

11:47 da tarde  
Blogger batista filho said...

Só te conheço daqui: das palavras que afloram do teu íntimo e tão generosamente conosco partilhas. Por vezes fica difícil (por tantas razões!) exprimir o que estamos a sentir. "Num" esquenta a cabecinha por causa disso não, tá? Se preciso, deixa estar, por um tempo. Quanto tempo?... quando chegar a hora de colocar em palavras o que estás a sentir, saberás por certo. Um abraço fraterno e solidário.

1:18 da tarde  
Blogger Barão d'Holbster said...

Sim, eu também ando cheio de trabalho e sem tempo para escrever. Mas não passa de uma fase. Isto é um bicho que está dentro de nós, não morre... Quando menos se espera, lá estamos defronte do pc a teclar. Eu sei, é sempre assim...

8:54 da tarde  
Blogger Carlos Gil said...

morreram-te? não acho... assim, em cascata tão cristalina e de pingos que me molharam, elas n foram de menos, ou de mais, foram as certas para elegia à Arte de (bem) escrever.
Tradicional mas sentidamente, Parabéns

1:49 da manhã  
Blogger Isabel Magalhães said...

Quando as palavras ficam 'brancas no branco' por vezes é falta de tinta.

Estas aqui são o reflexo de uma excelente capacidade de escrever.

A Lua também tem fases... que o diga eu nativa que sou de caranguejo.

* :)

3:01 da tarde  
Blogger . said...

You only live twice...

4:05 da tarde  
Blogger . said...

You only live twice...
LR

4:06 da tarde  
Blogger Aires Montenegro said...

Quantas vezes escrevi aqui um comentário!... Se não fosse o leme de a-bordo nunca conseguiria achar-lhe a rota de destino... sei que principiava assim: que não morram nunca essas palavras - e que fazia uma comparação com o som do violoncelo que continua a pairar sobre os corredores de casa mesmo depois de termos pousado o arco...

6:59 da tarde  
Blogger AmigaTeatro said...

Bastet, gatinha linda, as palavras são as nossas mais fieis companheiras e, se nós quisermos, estão sempre connosco...

Um beijo e *sódades*
:)**

9:18 da tarde  
Blogger th said...

olá, querida! antes de mais sou uma admiradora incondicional da tua escrita e tenho recomendado o teu blog aos amigos, merecidamente.
Em segundo lugar gostaria de levar este teupost e mostrar aos amigos que não conhecem e em 3º tens um desafio na Sebenta à tua espera.
Um beijo, th

9:54 da tarde  
Blogger Bastet said...

Que me morram as palavras se for o necessário para vos ter por perto. Obrigada. Muito mesmo.

11:47 da manhã  
Blogger Isabel Magalhães said...

Nós é que agradecemos as palavras que nos ofereces.

* :)

8:07 da tarde  
Blogger CAP said...

Elas não estão mortas; esconderam-se na neve. Agora, com a Primavera vais vê-las renascer com outro viço. ;)

1:02 da manhã  
Blogger batista filho said...

... tem uma prenda pra ti, numa certa ilha...

6:35 da tarde  
Blogger jp said...

eu sei que foi ontem
já me fustiguei como convém, mas não aguentei o silicio mais tempo
Um grande, grande beijo para ti minha querida, e que faças muitos e muitos e muitos
:-)****

11:50 da tarde  
Blogger Bastet said...

Obrigada aqui também baptista.

JP: é hoje rapariga, acertaste! Eu sei que pareço uma mentira mas não sou de um de Abril, sou de dois! Eh, eh, eh!

11:56 da tarde  
Blogger jp said...

eu sabia que és de dois, mas trabalhei já tanto este fim de semana que já estava convencida estar a 3...
tenho que voltar ao Nostan...
tens prendinha no mail e na terra do faz de conta
beijos bigodes

3:00 da manhã  
Blogger Elipse said...

Não fosse a arrogância diria que sou normalmente boa retratista.
Também gostei de te conhecer.
E dos olhos, sobretudo dos olhos felinos, que guardam, sabes bem, quase todas as palavras que dizes terem desaparecido.

3:22 da tarde  
Blogger Bastet said...

:) um beijo elíptico para ti!

3:52 da tarde  
Blogger Adriano Brito said...

Passo importante: reconhecer que as palavras morreram.

O pior é quando isso acontece quando não se nota. Cadáveres delas são expelidos de forma... irresponsável.

Chamo isso de amargura, a qual conheci recentemente.

Desculpe a invasão, abraços!

11:42 da tarde  
Blogger Bastet said...

Caro amigo Adriano Brito, em primeiro lugar eu gosto de invasões por aqui e só as posso agradecer! Este post correspondeu de facto a uma fase de angústia em que as palavras me pareciam ter deixado de fluir e que era necessário quase um esforço para as alinhar em texto. Espero que quando elas me morrerem de vez eu possa dar conta disso e abster-me de violentar! Obrigada.

10:34 da manhã  

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