sexta-feira, janeiro 20, 2006

a casa de Deidre

Deidre vive ao lado da loja das flores. Foi razão decisiva na escolha da sua casa. Já morara de fronte de um cemitério e apreciara a companhia sossegada dos silenciosos vizinhos mas quase se esquecera de si, perdida dos vivos e das conversas banais. Decidiu mudar no exacto dia em que reparou que fora tomada pela palidez do desinteresse, aquela que rouba as cores sadias da vontade. Vive agora com o cheiro das rosas e dos cravinhos e é muito cedo que abre as portadas ao frio para ver o camião chegar carregado de muitas cores. Todos os dias ganha de presente as flores esquecidas pela escolha dos demais e todos os dias as dispõe em jarras formando enfeites por tons. Deidre absorve o que a rodeia e como que se transforma no que vê. No demais não há facto nem história. Quando Ramond lhe mostrou a casa ela quase não a viu. As assoalhadas multiplicavam-se e desapareciam. Gostou da pedra e dos nichos e do amarelo forte da cozinha. Disse-lhe logo que sim e pagou três meses de renda num só gesto. Quando passava pelo corredor tentava lembrar-se onde dormira na véspera e adivinhava nas suas faces o tom dos lírios do quarto branco. Viajava de jarra em jarra pondo água e palavras nas pétalas. Se lhe perguntavam a morada concentrava-se na placa de azulejo que ladeava o primeiro portão da rua e lia um nome qualquer. Morava na casa das flores e usava brincos de princesa. Vivia do sopro do vento e na transparência dos vidros, na hora constante do vazio, intermédia hora das notícias.
Deidre sentia a azáfama das ruas e buscava nelas o burburinho com que enchia os ouvidos e o peito, para preencher os espaços mudos dos dias e não ser o fantasma de si própria. A sua vida era igual à dos outros, só que Deidre apercebia-se da volatilidade dos interesses e isto fizera dela diferente. Olhava o que queria com a certeza do sem sentido de qualquer desejo e da sua curta existência. Aprendera pois a não amar o que queria, até nada querer. Tomava a forma das flores e dos outros e era-lhes semelhante. Sabia que no momento em que não viesse o camião das flores, mudaria de casa. Indiferente às jarras e ao que ficava, como as flores sem raízes são indiferentes ao tempo. Largas rendas depois, Ramond ofereceu-lhe um vaso com terra e Deidre chorou de medo. Olhou o vaso e viu-lhe a âncora que se lhe prendia à alma. Ramond percebeu e enlaçou-lhe o corpo e disse-lhe que era agora. Deidre não sabia recusar a vida mas desejava a morte indolor. Quis fugir pela janela das rosas murchas e esconder-se noutra casa qualquer mas ninguém resiste à dor da existência quando por destino esta lhe é posta aos pés.

12 Comments:

Blogger jp said...

É uma especie de masoquismo,doi mas eu posso lá agora passar sem isto,este mel em fel que me derrete os sentidos. Mas um dia teremos que parar um bocadinho. Afinal as flores já não eram de jarra,agora cresciam na terra. Verdade ?

12:22 da manhã  
Blogger Caracolinha said...

quando olho à minha volta e vejo tanta Margarida Rebelo pinto a florescer pergunto-me ... e tu ? quando é que tu editas um livro ???? será que neste país não há lugar para aqueles que escrevem realmente como eu gosto ????

Parabéns querida, está uma delícia este texto.

Bjinho encaracolado :)

10:55 da manhã  
Blogger Bastet said...

É isso tudo JP. A terra e a vida dão sentido e fazem doer. Um beijo :)*

E que palavras te hei-de dizer Caracolinha? Obrigada. Obrigada por este teu comentário. ocou cá dentro. Um beijo :)*

8:41 da tarde  
Blogger Bastet said...

Ups! Faltou o "T". Tocou cá dentro queria eu dizer.... é o que dá escrever com o teclado e dois gatos ao colo.... :)*

10:37 da tarde  
Blogger Hipatia said...

Nunca gostei de flores podadas de loja, sem cheiro, demasiado plastificadas para serem ainda verdade. Prefiro mil vezes sentir os pequenos espinhos das rosas de S. Teresinha, deliciosamente odoríferas, pequeninas, maravilhas dolorosamente saudáveis, crescendo quase selvagens.

7:13 da tarde  
Blogger Asulado said...

Gosto do nome Deidre, especialmente quando pronunciado por Mr. Arthur Pewty no soquete dos Python.

12:21 da manhã  
Blogger Bastet said...

Também prefiro essa rosinhas silvestres que cresciam (e crescem) no quintal das minhas tias. Em minha casa não existem jarras com flores... Um beijo Hip.

foi o nome Deidre que me fez começar este texto Asulinho! :)*

11:41 da manhã  
Blogger forass said...

Ai rapariga! Mete umas cores nisto, da-se!

11:27 da manhã  
Blogger ikivuku said...

Que é que se pode dizer de um texto quando ele nos encaminha para um lugar de rotina e afinal procura a excepção? Que é que ele mostra quando parece que quer esconder e logo a seguir tropeça e deixa ver por detrás do véu um rosto feliz? Em tempos escrevia-se para usar os códigos aceites e dessa forma comunicar e seduzir com a imitação do dito e redito, tocando sempre as notas que já se esperavam e que chamávamos harmonia. Agora o génio está em conseguir encontrar ainda códigos não quebrados e reduzi-los a cinzas. Agora o génio está em fazê-lo sem explosões nem pirotecnia. Agora o génio está num quase silêncio que se move com agilidade nos pormenores que saltitam quase invisíveis, deixando ao leitor rendido o acto lúdico de se perder no labirinto ondulante da prosa. Sim, pode chamar-se harmonia...

8:08 da tarde  
Blogger SGC said...

Deidre=an irish surname...
de resto, um excelente texto, cmo sempre...
*

1:16 da manhã  
Blogger Bastet said...

Formiga... as cores estão lá nas flores desmaiadas... :)

Ikivuku: não sei quais serão os códigos não quebrados mas conheço, infelizmente, a sensação do nada de novo para dizer. :)

SGC: Deidre tem uma musicalidade estranha e parceu-me desde o início que só poderia sert este o nome dela. :)*

11:20 da manhã  
Blogger Bastet said...

Ups... faltou o «e" em pareceu-me e foi um "t" a mais no "ser"... :( desculpa!

11:21 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home