terça-feira, dezembro 27, 2005

o que não muda

Tenho esta beligerância nas palavras e um tom agreste na voz. As convenções, de tantas raízes, confundem-se com as convicções. Sinto a irritação crescer e contagiar-me como vírus perigoso em progressão geométrica. Calo-me. Talvez tarde demais.
O corpo já feito cadáver, ausente de vida. Enxameiam-se as pessoas ao seu redor. Os cortejos fúnebres acompanham o morto e não quem sofre a sua ausência. É em vida que se sente a dor e a saudade, contudo, é o corpo que não pode ir sozinho no carro preto com rendas e flores. Percebo as lágrimas de quem amou e o vazio que fica. Vazio que, sei-o, não se preenche com torrões de terra ou pedras inscritas. Porque estão lá os que antes não estavam? Porque se junta ao caixão quem não se junta no Natal? Porque se guardam urnas com cinzas? Que amor perdura por uma caixa de madeira com o pó de restos cremados? É difícil amar o invisível. O grande desafio que Deus terá perdido para as imagens e símbolos. "Que linda cerimónia"! O carro não pode parar na estação de serviço, para que quem conduz sacie a fome, beba um café, faça um xixi. As funções vitais ofendem quem jaz sem elas. Repara nos pormenores quem o sofrimento não tolda a percepção. Flores, muitas flores de cheiro enjoativo para quem não as recebeu pelo último aniversário.
Não há olhos postos no azul. Ninguém vê o céu. Todos veêm o preto. O luto pesado que enfeita e adelgaça as mulheres misteriosas por detrás dos óculos escuros. Reza-se por quem não foi à missa. É assim. Eu sei que é assim. E ainda assim, calo-me sempre tarde demais.

6 Comments:

Blogger AmigaTeatro said...

Bastet, aqui deixo um beijo meu e desejos de um bom ano, não te esqueças de entrar com o pé direito! ;)

11:23 da tarde  
Blogger Bastet said...

Olá Sara! Já cá estou de meia no pé direito à espera! Um beijo também para ti.

11:33 da manhã  
Blogger jp said...

O culto ao morto é antigo...teme-se o que não se vê,despreza-se o que se reconhece igual e perecível. A raiva expressa nas funções básicas,logo mesquinhas porque redutiveis à escala que nos representa.
(tenho passado parte de este ano,a dizer que a malta gosta mesmo é de levar nos cornos,não é de ser bem tratada)
Mas o que interessa é o que se mostra, não o que se sente e o que se vive.
Ri-te palhaço
Leva a tua piquena a cheirar as estevas molhadas, e com sorte descobrem um coelho de cabeleira molhada :-)
E já te deste conta do barulho das árvores a ressonar?

1:09 da tarde  
Blogger batista filho said...

Bastet, acho fantástico o que escreves!... o texto "chamassem-me ainda mulher" é de uma beleza e profundidade incríveis!

Deverei me ausentar por quinze a trinta dias ainda. Uma coisa que faço questão ao voltar: ler todos os posts teus!

Que o bom Deus continue a iluminar-te e aos teus entes queridos.

Inté.

3:49 da tarde  
Blogger Caracolinha said...

Venho desejar um encaracolado 2006 ... enrroladinho em coisas boas, cheio de alegria e boa disposição, força, amigos, amores, dinheiro, perspectivas, saúde, muita farra e ... dizer-te que foi um enorme prazer contar contigo na casquinha ...

Que um mar de felicidade inunde as vossas vidas no próximo ano !!!!

Beijoquinha muito encaracolada em coisas boas !!!! ;)

9:56 da tarde  
Blogger Bastet said...

É tudo isso JP! É mesmo tudo isso que dizes. E tens muita razão vou em busca de um coelho de cabeleira molhada :)***

Baptista: Volta depressa e que Deus te acompanhe.

Um beijo Caracolinha! Entra com a casquinha e as tuas doces palavras em 2006. O prazer, acredita, é todo meu de te ver por aqui a pôr os pauzinhos ao Sol&Tude! :)*

2:57 da tarde  

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