quarta-feira, julho 06, 2005

o amante de Lady Chatterley

Releio D. H. Lawrence ao acaso, ou não tanto ao acaso assim, porque procuro cenas antigas comparando o impacto que agora têm em mim com a memória que delas guardo. Percebo-o de forma diferente. Questiono-me de forma diferente. Passara despercebida a sensibilidade feminina do escritor. A descrição do torso nu do homem rude enquanto se lava. O que levou Lady Chatterley a apaixonar-se por ele? O que leva uma mulher a entregar-se a um homem de condição diversa, esquecendo a doçura das palavras nobres, a polidez dos gestos educados, a postura de salão? A resposta perde a sua importância, ou torna-se evidente, na exacta medida em que aumenta a sensualidade, o erotismo, os devaneios de um homem, que por ser tão homem faz daquela mulher, só uma mulher.
Não se acredite que é coisa pouca. Não se desmereça esta realidade que passa ao lado da grande maioria dos homens e que só é muitas vezes colmatada pela anulação e esmorecimento da mulher. Trata-se do culto do corpo amado, da protecção que se entrega ao que mais se deseja, da ternura da masculinidade embevecida pela maciez do corpo da sua fêmea, da certeza que transmite na segurança de um gesto de que ela, a sua mulher, chegou a casa. E esta é uma certeza muda que se fala pelos dedos. É uma certeza que não se escreve, nem se descreve pela poesia dos versos. Faz-se antes poema pelo toque, dicionário onde se aprende diariamente que o sinónimo de “tudo” é o corpo daquele homem que abraça a sua mulher que não é inferior, nem superior, é a sua mulher. É a curiosidade meiga pelo corpo diferente, que de tanto se querer se resguarda, querendo tocá-lo e senti-lo a cada instante. É a roupa interior que ele lhe tira como seu pertence dizendo-lhe assim que também ela lhe pertence.
Não, não é coisa pouca, nem tão pouco é coisa que se aprenda nos livros. Um homem é verdadeiramente um homem quando pela nobre virilidade do seu carácter faz a sua mulher revelar-se, sem medos ou vergonhas, sem tabus ou preconceitos, quando um olhar seu lhe diz mais que mil elaboradas palavras de paixão, quando a única coisa que a mulher reivindica é não querer mais ninguém nunca mais no seu corpo e no seu leito.

66 Comments:

Blogger Caracolinha said...

Arrebatador, escrito com a sensibilidade, a delicadeza e a feminilidade que só uma mulher especial consegue tirar de si mesma. Muitos parabéns. Fiquei maravilhada.
Beijo Encaracolado ~:o)

12:13 da tarde  
Blogger Alcabrozes said...

o net pulha
Pouco sensível como sou, a primeira imagem que me veio à cabeça(?), foi a do Tal Canal, e dos amores entre a Não me chame Condensa, que me põe tensa (Lídia Franco) e do seu jardineiro labrego (Manuel Cavaco), personagens do Diário de Marilú...

12:33 da tarde  
Blogger Bastet said...

Marilú essa mulher sensível! Guardava no seu diário verdadeiras pérolas! Só mesmo outra mulher sensível como o herman para a interpretar.

12:35 da tarde  
Blogger Alcabrozes said...

o net pulha
Não concordo! A Marilú era sim uma das mais geniais travecas que o Herman interpretou, manteve sempre aquele jeitinho e os tiques lesbo-rurais de quem leu a crónica feminina desde os 12 anos, mas no fim revela-se como o namorado de infância de Cilinha, o Zé Augusto, que morava na barraca contigua ao muro das traseiras da quinta dos pais da menina...
Isto para dizer que não acho o Herman uma mulher sensível, antes uma bi-chona ultra perspicaz e talentos@...

12:45 da tarde  
Blogger Bastet said...

leva a bicicleta! lololol!!!

12:46 da tarde  
Blogger forass said...

Porra, que TESÃO!!!

1:40 da tarde  
Blogger vague said...

Li 'O amante...' há alguns anos e, naturalmente, não me escandalizou, como era suposto se vivesse no séc...XIX?

Bastet, vejo pelo menos 2 tipos de paixão animal - aquela q findo o orgasmo (há aqui menores?) se esgota até ao próximo pq não reconhecemos no homem a polidez, a ternura e a paixáo viril.

E vejo outro tipo, o q me mais me interessa numa relação, q é a de mesmo depois de, e mesmo q ele não tenha todos os refinamentos e todo o polishment q é quantas vezes uma máscara ou um verniz q estala, tem a integridade e a virilidade de nos fazer sentir fêmeas de corpo inteiro, de alma inteiros. E não nos envergonha, não nos falseia, ah! e a palavra amante é tão bonita. Amante, quem ama, quem é amado.
bjs, estou de fugida, o trabalho ataca-me, grrr

2:43 da tarde  
Blogger vague said...

Pq 'polidez' e 'refinamento' são conceitos algo vagos e ambíguos.
A verdadeira polidez está na alma e se existir aí revelar-se-à nos modos, na forma de tratar o outro, mesmo q falhe algum protocolo da Paula Bobone e uns Dostoievskys na estante. Fui! :)

2:46 da tarde  
Blogger Zu said...

Que belo texto! Concordo com cada frase, até as que dizem por palavras o que até agora apenas era intuição não traduzida em frases. Sei o que é sentirmo-nos "em casa", do tudo que alguém pode ser para outra pessoa. E vale a pena.

3:57 da tarde  
Blogger Bastet said...

Vale pois Zu! Se vale! Subscrevo também aqui as palavras da Vague e o comentário do Forass :)

4:04 da tarde  
Blogger vague said...

'Sentirmo-nos em "casa"' Zu, pois :)

Tb susbscrevo o comentário da Bastet, Zu e forass :D

4:48 da tarde  
Blogger . said...

Se me permitirem, gostava de deixar aqui os meus dois centavos, num tema que me interesssa particularmente.
E do texto da minha amiga Bastet ressalto a seguinte expressão, que é, quanto a mim, a chave: "Trata-se do culto do corpo amado".
Pois é, fundamental nisto tudo é o fascínio (ou culto) pelo corpo. A, diria, veneração pelo corpo da mulher (para mim, para outros e outras o da mulher ou do homem, conforme os casos e os gostos), pela beleza esmagadora do corpo da mulher, das suas formas suaves, dos seus movimentos delicados. Sempre e de cada vez, como se o corpo ao nosso lado fosse (é) algo novo, a descobrir, a saborear.
Vou mesmo cometer a afronta suprema e falar em sentimento pelo físico, pelo sensitivo. Sem esse, bem se poder meter a viola no saco e mandar o Platão às urtigas!
AR

5:09 da tarde  
Blogger vague said...

AR, concordo ctg. Manda-se o Platão às urtigas, às beldroegas e ao açafrão.

E agora me quedo que o sono me quer espantar. Umas 3 horas de sono e fico fresca de novo.

Dorme bem, Bastet, sonhando sonhos bons;)

7:15 da tarde  
Blogger Zu said...

(estou a pensar no Platão a comer uma sopinha de beldroegas :D)
"Sempre e de cada vez, como se o corpo ao nosso lado fosse (é) algo novo, a descobrir, a saborear." - é isso mesmo, AR! Como se a cada vez se reinventasse o amor.

9:56 da tarde  
Blogger Hipatia said...

Será sempre desejo nosso encontrar um par de braços onde fazemos ninho. E o ninho é sempre mais do que fome física debelada. É mais do que um orgasmo passageiro. É pertença, entrega e, por essa via, é domínio também. No fundo, é completude. Uma completude almejada e, tanta vez, vista apenas de passagem, como um lapso, quando o ninho não prova ser - por desconhecimento, incompetência, incompatibilidades - casa. E não sei se isto é um sentimento feminino. Eu entendo-o no feminino porque sou mulher. Mas acredito que também todos os homens queiram encontrar um ninho feito de braços de mulher. Ou que os homossexuais os queiram encontrar nos braços de outro do mesmo género. E até que, para uns quantos - fiéis a credos fortes - tal se encontre na lonjura de uma gruta de meditação ou numa cela de convento.

Mas a completude não é fácil de encontrar...

10:10 da tarde  
Blogger . said...

Ninho ... ninho ... eu gosto do corpo pelo corpo, da sua estética. Do orgasmo solitário quando é altura disso. Do encantamento que se repete, seja o corpo o mesmo ou não. Isto provavelmente é pouco romântico, mas eu ando na fase da estética e do prazer dos sentidos (dos vários).
AR

11:08 da tarde  
Blogger Hipatia said...

O hedonismo não cansa, AR? Claro que cansa! E nunca será pela estética que um corpo me prende: o meu não me prende pela estética; o corpo dos outros também não. Gosto de homens feios, aliás. De cicatrizes. De olhares sabidos e profundos. Mas, nem sequer é uma questão de estética. É quase uma questão de instinto. Porque o animal - talvez o animal fêmea - que vive em mim, mesmo sabendo como encontrar o prazer, o orgasmo simples, quase banal na sua simplicidade, prefere ainda assim sonhar com a completude de ninho de que falava. E nesse ninho o corpo não é objecto estético, ainda que o toque como obra de arte. E o orgasmo não será solitário, mesmo que esteja sozinha: dentro da minha cabeça, dentro da minha tusa, haverá um corpo e um ninho e os prazeres constróem-se dessas pequenas completudes. Se não chega a preencher-me por completo o corpo, o pensamento, os sentidos, não passa de um sucedâneo rapidamente esquecido, como tantos ornamentos estéticos que já nem recordo onde vi.

11:56 da tarde  
Blogger Zu said...

É engraçado como outras pessoas dizem exactamente aquilo que penso. Já concordei em tudo com o que a Bastet escreveu, concordo agora com a Hipatia. Hedonismo é pouco, demasiado pouco. É o ninho que eu busco - e que ofereço. E corpo nenhum é mais atraente do que o corpo do homem que eu amo, nenhum mais desejável do que esse, em nenhum sinto maior vontade de me perder - e encontrar.

12:07 da manhã  
Blogger Maria do Rosário Sousa Fardilha said...

bastet, que texto forte, "vertiginoso", sensual, animal!

parabéns!

1:58 da manhã  
Blogger Bastet said...

Hipatia: partilho contigo o gosto pelos homens feios e olhares sabidos, sempre achei que este gosto, ao qual acrescento a minha natural preferência por homens mais velhos, está relacionado com a procura de alguém que saiba mais da vida do que eu e que por isso me transmita na dose exacta a sensação entre a segurança ao seu lado e a insegurança que diariamente me faça lutar por ele.

9:56 da manhã  
Blogger . said...

O hedonismo não cansa, Hipatia? Claro que não cansa. O hedonismo é essa coisa perversa de viver cada momento na sua plenitude, sem pensar no antes nem no depois. Eu atrever-me-ía a dizer que uma das causas da infelicidade do indivíduo é a sua incapacidade em viver o momento e procurar sempre algo que não tem. Enquanto o indivíduo procura o 'ninho' não usufrui de forma plena o momento. Não usufruindo o momento procura mais intensamente o ninho. E assim por diante, numa busca que não só não tem fim (eventualmente) como potencia a frustração do indivíduo. Pelo contrário, se nos deixarmos levar pelo momento, e depois pelo outro, e pelo outro, essa eventual sucessão de momentos poderá permitir que surja o 'ninho'. E se não surgir, também não me parece existir drama nisso. A vida não acaba por isso.
Ah. E eu acho que poucos são os corpos que não são bonitos. Se calhar defeito meu.
AR

10:58 da manhã  
Blogger forass said...

A paixão, o medo; o momento, o desejo; o instinto carnal, a loucura; o olhar, a compreensão; o toque, o arrepio; a vida, a vertigem; o beijo, morri; o amor perpétuo... o amor... e o amor?...

PORRA, MALDITA TESÃO!!

11:47 da manhã  
Blogger Bastet said...

Forass: quantas vezes já te disse para não leres estas coisas? Hum? Vá vai lá ao duche. :)

11:51 da manhã  
Blogger forass said...

'qais banho 'qais carapuça! O que é bom e sabe bem, é para se ter!!

12:10 da tarde  
Blogger Zu said...

Eu acho que o usufruir do momento não é incompatível com a procura do ninho. Depende da forma como se encaram os momentos, e dos momentos que forem. Mas não pensar nem no antes nem no depois parece-me - desculparás, AR, este comentário - irresponsabilidade. Mais vale pensar antes para não nos arrependermos depois. A sensação não é das mais agradáveis.

12:13 da tarde  
Blogger Bastet said...

Pronto, pronto, só me estava a parecer que no trabalho não era conveniente mas quem sabe até não te dá direito a uma promoção! :)

12:14 da tarde  
Blogger Bastet said...

Parece-me, caros Zu e AR que, a postura que temos perante os momentos poderá ser razão dificultadora ou facilitadora da encontra do "ninho". A velha história do semear para colher e de que quem ventos semeia colhe tempestades, serve aqui perfeitamente ou, pelo menos, serve-me a mim perfeitamente. Não gosto de me arrepender das minhas entregas e ainda quando isso acontece gosto de saber que ao menos foram feitas com paixão e sob a ilusão que esta transmite do encontrar do ninho.

12:22 da tarde  
Blogger vague said...

Esse 'corpo sempre novo a sentir a saborear' não faz parte de uma certa ilusão de imortalidade ou de perenidade?

Estou a fazer um pouco de advogado do diabo pq é isso q procuro ou q me vai encontrar, sei lá.


Ao mesmo tempo, o tédio É uma parte inevitável das relações. Ultrapassável, pois quando a chama é baixa e se valer a pena, novos ciclos de paixáo virão e a chama altear-se-à.

Lembras-te do filme q vimos, Bastet? 'Um certo tédio inevitável' e a aceitação disso mesmo. Algo q faz parte, q pode fazer parte mas q não deixa morrer a relação.
Complicado (p/ nós) é, ao mínimo sinal de desencanto, quebrar amarrras - afinal é tão fácil (?) -passamos mais tempo fora q dentro de casa, as separações não são socialm/ censuráveis e a progressiva autonomização da mulher faz o resto. E há sempre a doce ilusão q do lado de lá do muro a relva é mais verde...


E no entanto ...não sou conformista.
Parece-me q andamos todos, raça humana, com a ilusão do ideal, e eu incluída, por isso sou um pouco arisca comigo mesma.

2:37 da tarde  
Blogger aDesenhar said...

:)
fazer um comentário!
como no futebol...chego em tempo de prolongamento e mesmo à beira do apito final...
é o grande problema de chegar depois de tudo o que foi dito aqui, mais o post original... resta-me pouco espaço de manobra...e por falta de tempo...
subscrevia as palvras de um nik com esta referência "Trata-se do culto do corpo amado".um bom tema a explorar :)

:)

2:40 da tarde  
Blogger . said...

Zu, parece-me que temos aqui um problema de interpretação ... quando eu digo antes e depois não estou a dizer fazer as coisas sem pensar nas consequências. Aquilo que me parece é que nós vemos as consequências de maneira diferente. As consequências são aquilo que nós quisermos. Uma noite de prazer não vincula. Só vincula se se quiser. E não tem que haver lamento acerca disso. O problema está quando as duas partes (ou as partes que forem) têm expectativas diferentes. E isso provavelmente resolve-se com uma conversa prévia. Parece-me.
E ainda alguém me há-de explicar porque é que tudo tem que ter uma consequência, ou porque é que sempre alguém se há-de arrepender pelo quer que seja. Acho que isso tem a ver com a necessidade que muita gente tem de ligar sexo ao amor, a incapacidade do prazer pelo prazer e o entender-se que isso é uma forma menor de relacionamento. Por acaso acho que é bem mais difícil viver-se o prazer pelo prazer do que à sombra da protecção do sentimento. Mas isso se calhar sou só eu que sou maluco! ;)
AR

2:52 da tarde  
Blogger Bastet said...

A questão AR é que quando se mistura o bom sexo com o amor a mistura é explosiva e boa demais. Mas concordo contigo neste aspecto é difícil o culto do prazer pelo prazer. Só muito amor permite que uma relação sexualmente fraca se torne numa boa relação e quantas vezes o bom sexo permite a manutenção de uma relação fraca. Ah, mas quando as duas coisas boas se misturam...

3:02 da tarde  
Blogger Zu said...

"Sem pensar no antes nem no depois" foi frase tua, AR, daí o meu comentário. Com conversa prévia só se resolve, a meu ver, parte dos eventuais problemas, tendo em conta que, muitas vezes, as expectativas são mesmo diferentes de parte a parte, e nem a conversa prévia retira expectativas a quem as quer ter (normalmente as mulheres, que costumam ser mais "afectadas" pelos sonhos românticos).
Viver o prazer pelo prazer. Bolas, lá vou eu falar sem peias, e depois arrependo-me porque isto pode ser lido por qualquer pessoa. (Vês como pode haver arrependimento mesmo com um acto reflectido e tão inocente como, de uma forma anónima para quase toda a gente, dar a minha opinião num assunto desta natureza? Quanto mais quando há feromonas pelo ar, e instintos, e corpos que se atraem, etc, etc, e a cabeça não pensa...)
O prazer pelo prazer, dizia. Pode ser muito bom. Até acho que pode não haver melhor queca do que a inconsequente, a que não leva a mais nada senão a si mesma, em que o único empenho é o prazer do momento. Mas isso é apenas a queca, que acaba e pronto. Mas e depois? Esquece-se, segue-se a próxima? Isso satisfaz? A mim não. Concordo que é mais difícil viver dessa forma e nada mais pedir do que isso do que querer sentimentos - eu não consigo viver assim.
Se é uma forma menor de relacionamento? Depende do conceito de menor e maior, creio. E de relacionamento, é claro.

3:13 da tarde  
Blogger . said...

Vague, eu não tenho essa perspectiva da imortalidade. Nunca pensei nas coisas nesses termos.
Agora ... o que sinto é um fascínio sempre renovado pelo corpo feminino, pela beleza das suas formas, pela sua harmonía.
AR

3:19 da tarde  
Blogger . said...

Eu sei que disse "Sem pensar no antes nem no depois", mas foi num sentido diferente daquele que lhe deste.
De qualquer das formas, quando falo no prazer pelo prazer não pretendo dizer a queca pela queca. Mas não vendo as coisas como as vejo acredito que não seja fácil perceber aquilo que digo.
Porque o saborear o corpo de uma mulher não é apenas uma questão de queca. É acima de tudo um momento de grande ... como direi ... beleza, mas em que não existe envolvimento sentimental, o que nos liberta para fruir do corpo como objecto - que também é.
AR

4:17 da tarde  
Blogger Zu said...

Se calhar a falha de compreensão está no facto de eu não encarar desse modo o corpo feminino ;))))

Sem brincadeira: é belo. Mas não é só corpo. Nunca alguém é apenas um corpo. Será aí que reside a diferença de modo de pensar? E que se cria a incapacidade de não se ligar à pessoa de cujo corpo usufrui e a quem se entrega o corpo?

4:25 da tarde  
Blogger Zu said...

(Falhou um "se" no comentário acima: "cujo corpo SE usufrui")

4:28 da tarde  
Blogger . said...

Provavelmente é aí que reside a diferença, sim. Um corpo é um corpo. Tu achas isso pouco. Eu acho isso muito. :) E daqui se calhar não saímos! :D
AR

4:38 da tarde  
Blogger . said...

Quanto à pessoa, para começar a pessoa é o seu corpo. E é depois o diferenciador do seu corpo. Mas isso não anula a natureza física dele nem lhe retira brilho nem cria uma expectativa nem ... nem ... nem ...
Ou seja, o envolvimento físico passa pelas duas vertentes: o corpo e a sua personalidade. Mas isso não deixa de ser físico e de nele se reflectir.
AR

4:42 da tarde  
Blogger Zu said...

Um corpo é um corpo, mas uma pessoa não é apenas um corpo. Eu pertenço ao grupo dos patetas sentimentaloões que não são capazes de não se ligar a quem entregam o corpo, porque com ele vai pelo menos um bocadinho da alma. Tu não (o que não faz de ti um desalmado ;)). E daqui, decerto, não saímos! A menos que tu mudes de ideias, mas já percebi que consegues ser, pelo menos, tão casmurro como eu :DDD

4:45 da tarde  
Blogger Zu said...

Escrevi antes de ler o teu último comentário. Não percebi o que entendias por diferenciador de um corpo: a personalidade?

4:49 da tarde  
Blogger vague said...

Não sei no q me estou a meter pois a conversa já ganhou asas e voa em tantas direccões. Tentar apanhar um fio ou entrelaçar-me na meada ;)

Uma noite de prazer não vincula, alguém disse. Pois não. O q vincula é o acordo q pode ser tácito ou explícito ; mas não me estou a ver a fazer um acordo pré-queca :D

Tudo mto explicadinho ou tudo mto ambíguo pode trazer complicações emocionais. Sobretudo qdo, não estando nenhum dos 'amantes' apaixonado, e tudo corre como a maré, mais tarde algum se apaixona. E aí, adeus acordos! Como se pode programar o coração?

Não sou autómato nem posso nem quero dar garantias, mas bolas...
há um mínimo de decência mestas coisas das relações, haja compromisso ou não. Cada um faz o q quer, desde q a outra pessoa queira o mesmo, é o meu lema, embora as certezas de hoje nos defraudem amanhã mas isso é outra conversa, mais uma cereja e um copo de vinho e ficávamos aqui a tarde inteira.

O culto do corpo? Um corpo amado é belo. Um corpo não amado é belo. A sensualidade é bela. É a sensualidade, a boca, os olhos, um perfil entrevisto na penumbra, o ser-se quem se é, à vontade e sem receios, um olhar indeciso, ambíguo ou pleno...
Sim, prazer pelo prazer, sem consequências, porquê? E porquê c/ consequências?

A Inês Pedrosa tem um conto num dos seus livros q sr chama 'Só sexo'.

E,

tal como a personagem ironica e implicitamente concclui e qq pode concluir da sua vida, 'sexo não é só sexo'. Nunca é 'só sexo' mesmo q seja só sexo.



Desculpem complicar mas gosto de ter o prazer da contradição :)

4:51 da tarde  
Blogger . said...

Zu, sim, a personalidade é o elemento diferenciador do corpo. Importante quando não existem sentimentos envolvidos. Quando existem então outros serão os elementos diferenciadores. Outros marcarão a diferença. E não é verdade que não me ligue a quem entrego o corpo, embora isso se calhar seja o que pareça com esta conversa toda. A questão é que não tenho que me ligar emocionalmente. Posso-me ligar por ser apenas uma mulher bonita. Ou por ser uma mulher inteligente. Ou por ser uma mulher forte. Ou por ser uma mulher frágil. O que não necessito, se é isso que queres dizer, é de estar apaixonado. Pois.
Vague, pois se um (ou os dois, já agora) dos amantes se apaixona, logo se vê. Esta perspectiva 'hedonista' não implica que os amantes não se apaixonem. E se se apaixonarem, provavelmente ainda bem para eles. O que digo é que não têm que se apaixonar. Aliás, até pode dar origem a uma cumplicidade muito interessante, que aprofunde a amizade entre eles de uma forma que não seria possível acontecer de outra forma.
AR

5:20 da tarde  
Blogger Zu said...

(Vamos chegar ao fim da conversa e descobrir que afinal estamos de acordo, mas a ver a coisa por prismas diferentes)

A Vague deixa no ar uma pergunta que acho muito pertinente. O que é "só sexo", afinal?

O AR em parte responde, mostrando que não é só sexo. Não tem de se estar apaixonado, sem dúvida. Há alturas na vida em que isso chega. Sem dúvida que há amizades que se podem cimentar por essa via (menos, creio, do que aquelas que irremediavelmente se perdem por causa disso). Mas também há alturas na vida em que isso não chega. Em que se quer a parte de nos apaixonarmos, de encontrarmos um ninho, etc, etc, como no início desta conversa foi dito. Acho que o mais importante, em conclusão, é sermos coerentes e honestos connosco mesmos. E com a pessoa com quem estivermos, claro - mas sem a prévia honestidade para connosco, é difícil usar dela com outrem.

5:34 da tarde  
Blogger . said...

So many women, so little time, AR? Tu és um grande artista...
LR

5:40 da tarde  
Blogger . said...

Meu caro amigo, ainda bem que concordas!
AR

5:51 da tarde  
Blogger Zu said...

Isso é que é poder de síntese, LR :)

6:14 da tarde  
Blogger vague said...

Deixem-me acrescentar q não sabendo quem é o LR (e do AR pouco sei além do gosto por beldroegas), q é elementar caro watson a dedução da sua idade. Essa música era cantada há mais de 20 anos por uma miúda punk? Eu era bébé mas lembro-me...

6:55 da tarde  
Blogger vague said...

O pc de casa acho q pifou - não o queres vir arranjar este fds? ;)Zu não convido pq enfim :D:D:D

(Qto ao strip ainda não o fiz, perdão, escrevi, mas tenho tudo a poostos:))

até amanhã , q vou descansar do dia.

6:59 da tarde  
Blogger Hipatia said...

Talvez tudo se resuma a uma coisinha que escrevi ali em cima, AR: dentro de mim, vive um animal fêmea, com necessidades biológicas muito mais estritas do que aquilo que eu, cultural e socialmente, gostaria de admitir. Porque a minha necessidade de um parceiro permanente estará, por certo, inscrita num qualquer gene. Não preciso - biologicamente - de viver condicionada pela necessidade de espalhar sementes. E, como animal, estou também condicionada pela necessidade de acasalamento, a que a maravilhosa natureza acrescentou o bónus do prazer, apesar de todos os tabus que o tentam condicionar.

Mas eu preciso - para além do prazer físico - da possibilidade de inventar dentro da minha cabeça um amante. E um amante - a "cousa amada" - será sempre muito mais do que um corpo. E torna-se uma coisa tão física que nem o orgasmo sabe ao mesmo, prazeroso que seja ainda assim amar só um corpo. Um corpo sob um olhar hedonista é descartável, não almeja a perenidade. E a minha entrega plena só se faz na certeza - ainda que normalmente ilusão mascarada - de que naquele momento construo eternidade. A eternidade possível que está ao meu alcance.

E, se for apenas um corpo, até o meu corpo se ressente. Não, não tenho vergonha de o afirmar: por maior que seja a tusa, se ali só estiver ao meu lado um corpo descartável e não um amante pleno, o corpo pode até nem responder, o orgasmo pode não vir, ficar apenas meio gozado no prazer possível mas incompleto. E talvez seja mesmo porque, como tão bem disse a Bastet ali em cima, eu apenas procuro quem "me transmita na dose exacta a sensação entre a segurança ao seu lado e a insegurança que diariamente me faça lutar por ele". E isso não encontro em nenhuma busca fortuita de corpos para amar.

E também não me arrependo de nenhuma das vezes que amei, mesmo aquelas mais fortuitas, mesmo as que só visavam debelar a fome. Mas, porque sei como sou, como me sinto quando são bem mais do que corpos às cambalhotas, sei o que prefiro e não é nunca o fortuito: é o gozo pleno, é o tesão imenso, de cheiros que carrego comigo o dia inteiro, vozes que me fazem vir quando me sussurram mistérios pelo telemóvel, ou a forma como os meus dedos, dedilhando costelas no peito mais querido, seriam capazes de compor uma sinfonia. Claro que é hedonismo também. Mas é bem mais do que isso: é ninho!

11:52 da tarde  
Blogger Hipatia said...

(Oh Bastet, 'pariga, tu manda-me embora, que ando a escrever por aqui testamentos e quem paga, depois, é a coitadinha da Voz)

12:01 da manhã  
Blogger Bastet said...

Caramba Hipatia não te mando nada embora! É isso tudo! Olha fica tu com as pantufas roxas que hoje mereces! :)

Reformulando o dito pelo LR: So many men bust just my man takes me all the time.

12:09 da manhã  
Blogger Zu said...

Minhas queridas Bastet e Hipatia, vou-me deixar estar caladinha. Vocês dizem por mim tudo o que penso.

12:24 da manhã  
Blogger . said...

É curioso como a imagem da paixão pode variar. Para muitos homens, o ideal será antes uma mulher imprevisivel e perigosa. Que mereça um comentário à Humphrey Bogart nos seus clássicos filmes negros: "She had trouble written all over..."
LR

1:05 da manhã  
Blogger Mocho Falante said...

Ao acabar de ler este belo post só me apeteceu agarrar e reler o belo livro Wuthering Heights (Monte dos Vendavais), um clássico de uma beleza estrondosa...a ler

1:26 da manhã  
Blogger Zu said...

Esse é o tipo da mulher fatal, LR. Será que os homens gostam mesmo de mulheres fatais, ou apenas sentem a atracção do abismo por elas?

1:30 da manhã  
Blogger Helena said...

olá, bastet

ainda ontem andava a arrumar umas estantes e dei com esse livro, que li já há muitos anos

e não é que o pus de lado para reler?!
;D***

8:32 da manhã  
Blogger Bastet said...

Mochinho: Li O Monte dos Vendavais há ainda mais anos que O Amante de Lady Chatterley ambos sob recomendação da minha mãe. É de facto um livro admirável e dos que enquadro na categoria dos "favoritos".

Laura: Andamos a par e passo, será que é da companhia felina de que nos rodeamos? :)

LR: Não era para falares da autora do post! lololol!!! :)

9:56 da manhã  
Blogger . said...

Boa pergunta, Zu. Porque será que preferimos a vertigem da proibição ao equilíbrio das convenções? Embora no caso da Bastet salte à vista... ;-)

10:42 da manhã  
Blogger Bastet said...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

11:21 da manhã  
Blogger Bastet said...

Caro Virgul: Quanto à semelhança com o forum sic mulher eu concedo :) quanto ao resto é que já não vai, porque nos conhecemos todos uns aos outros, porque partilhamos sensibilidades e amizade e como tal ninguém está aqui a querer convencer ninguém de nada. Lamento.

11:28 da manhã  
Blogger . said...

Pois é, Hipatia, todos temos necessidades diferentes e vemos as coisas de maneira diferente. E acho que quanto a isso não deve haver muita volta a dar.
Já a história do abismo, Zu ... hmmm ... tem muito que se lhe diga. Haverá maior atracção?
AR

2:49 da tarde  
Blogger Zu said...

Desculpem a ausência, hoje o dia tem sido complicado. E continua! Mas depois direi como NÃO sinto atracção pelo abismo (pelo menos pelo abismo tradicional).

9:14 da tarde  
Blogger Judite said...

Teresinha
De Chico Buarque

O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração

PS: 'tá percebido? :)
PS1: a questão do «She had trouble written all over...» faz-me pensar... (por pouco tempo): Os homens gostam disso, como as mulheres também, ou é apenas um «teaser» para início de relação que se esvai assim que chegam contas para pagar e dificuldades no dia-a-dia? Nessa altura, eles voam para os braços das constantes e elas fazem o mesmo, deixando de parte o perigo e procurando o aconchego? Pá... não sei mesmo.

8:53 da tarde  
Blogger Bastet said...

Judite: gosto muito desta canção do Chico Buarque. Das relações e da forma como elas evoluem sabe-se apenas que nada ou pouco se sabe. Eu, pessoalmente, gosto de quem representa o perigo e a certeza, da versatilidade, da coragem da entrega sem reservas, da sobriedade do companheirismo e da loucura da paixão, tudo isso num só homem. E sim é possível, e sim existe! :))))

11:30 da manhã  
Blogger Judite said...

Sim, Bastet, existe. E sim, essa descrição aproxima-se do céu. Mas é mais fácil acertar no Euromilhões, não?

12:42 da tarde  
Blogger Bastet said...

Não Judite, no Euromilhões eu não acertei! :)

2:57 da tarde  

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