quinta-feira, julho 14, 2005

fitness

Talvez a lição suprema seja olharmos para o mal como o mal necessário. Todo o mal como condição de aprendizagem. A cartilha da vida e do crescimento. Desta forma o que é mau faz-nos melhores e aqui residiria a fórmula do perdão. Perdoarmos o mal, a ofensa, a adversidade e o ódio. Encarando cada obstáculo como percurso liceal que nos levará ao conhecimento. Praticar o dar da face à vergastada que a suposta resignação deste gesto é a sabedoria última ou o primeiro travão à descontrolada repercussão da violência. Aceitar estas leis é aceitar que a vida tem um sentido maior do que vida em si própria, do que a mera reprodução dos genes e manutenção da espécie. A vida como caminho interminável de aperfeiçoamento. Quando começamos a prática de qualquer desporto, por razões estéticas ou de saúde, aceitamos as dores musculares, o suor, como inerentes ao nosso propósito. E quando estamos no balneário no final do treino, apercebemo-nos claramente que foi o ultrapassar das nossas limitações que transformou aquele banho numa manifestação de frescura, de saúde e de vida.
Neste entendimento, a vida, será um ginásio constante de fitness, de modulação do corpo e da mente e a maldade, será a carga ou o peso com que o Mestre nos carrega a nossa máquina, exigindo-nos, qual treinador de musculação, mais e mais repetições por treino. Não deixa de ser verdade que nos vamos fortalecendo à medida que vencemos a dor, que vamos retirando ilações fundamentais para o nosso comportamento quotidiano e que vamos olhando o mundo com olhos que vêm melhor, cada vez mais preparados, mais em forma ou, pelo menos, de outra forma. Aceitarmos que Alguém foi O responsável pelo traçar do nosso mapa de exercícios permite-nos não só não desesperar a meio da aula como aguardar com fé o milagre do gel de duche.

30 Comments:

Blogger Zu said...

Tenho estado a olhar e a reler este post, e a pensar. Será que acredito num mapa de exercícios definido para mim por Deus? Não. Acredito é que no percurso da vida deparo com obstáculos (não colocados por Deus, ou Ele seria não infinitamente bom, mas infinitamente sádico) que me cabe ultrapassar da melhor maneira. Deles poderei sair ou não fortalecida, depende do que fizer. Para os ultrapassar contarei com a ajuda divina - no sentido de n'Ele encontrar força e um sentido para a vida, não de Ele remover os obstáculos ou fazer milagres para me agradar.
E de novo me lembro de uma frase uma vez lida, que dizia assim: "Reza a Deus, marinheiro, mas vai remando para a praia."

6:24 da tarde  
Blogger Mocho Falante said...

Engraçada a forma como a comparação é feita, de facto não deixa de ser verdade que há exercícios na nossa vida que só mesmo Deus poderia ter conceptualizado. Costumo até dizer que a vida nos coloca as adversidades para que sejam resolvidas, se as evitas, na verdade o que estás a fazer é adiar uma resolução de uma situação que mais tarde te aparece em forma de um problema bem diferente e às vezes bem mais sério para que de uma vez por todas ultrapasses o obstáculo inicial

Adorei este post!

11:41 da tarde  
Blogger Mocho Falante said...

Temos de dar uma ajuda a este blog ter som, definitavamente merece!!!!

Bastet, aqui vai o meu mail para me contactares caso te interesse dar "voz" a este belo espaço

mochofalante@hotmail.com

11:43 da tarde  
Blogger Bastet said...

Zu: Além de infinitamente bom também Ele é infinitamente poderoso. Ou seja, ainda que os obstáculos não sejam colocados por Ele, Ele poderá por certo retirá-los prontamente - o que, desta forma, não afasta o "sadismo" que referes. Ou será que não se trata de sadismo e assim tornar-se-ia desnecessário torná-lo isento do mal que atribuímos a Lucífer?

Mocho que fala: Já madei um e-mail :)

12:04 da manhã  
Blogger Zu said...

O teu comentário levar-me-ia a comentar de novo, mas estou com sono em demasia para conseguir escrever uma coisa com pés e cabeça. Boa noite!

1:23 da manhã  
Blogger a-bordo said...

sabes aqueles meus exercícios auto-referenciais do género: o que vou dizer?, já disse; são de resto como muitos dos exercícios do mesmo género, modos de resolver atrapalhações; e este post deixa-me um bocado atrapalhado; fora da terra e lá pela minha casa, raramente falo deste tipo de coisas; e aqui se começasse a falar mais valia estar calado; porque: tinha de começar a falar do rigor teológico das imagens, a atlética, por exemplo, e não quero: - alguns meus amigos teológicos depois do silêncio a que tenho andado remetido nestes assuntos ainda me matam - mas quero dizer que neste momento não me interessa o rigor das imagens, mas apenas o que elas deixam ver; por isso, parabéns pelo post. e vê lá tu, lá consegui dizer o mais importante. um beijo

3:25 da manhã  
Blogger Caracolinha said...

Nem mais ... como se ouvia nas aulas de filosofia ... «a vida é um constante devir ...» beijinho encaracolado ~:o)

5:53 da tarde  
Blogger João Santos said...

olá
Acho o blog sensasional.
Publicitem-me este blog... please...
www.musicaparacerimonias.blogspot.com

6:05 da tarde  
Blogger Bastet said...

Como por certo calcularão não tive qualquer cuidado especial no que se refere a qualquer rigor teológico, até porque a falta de conhecimentos não mo permitiria. No entanto, este é um post sentido e reflexo de algumas divagações últimas. Mas confesso, a-bordo, que bem gostava que não ficasses calado, até porque este post é também o reflexo de uma eterna procura a quaisquer boas ajudas e achegas seriam tão bem vindas... :)*

11:16 da manhã  
Blogger a-bordo said...

bastet, vou então dizer mais qualquer coisa; mas não discutindo questões como o pecado original, o papel do Espírito Santo, no fundo, a economia da Graça; e deixo também de lado, questões históricas como Agostinho e Pelágio, o contencioso entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, Lutero e o Concílio de Trento; e por fim, qualquer tentativa de usar a linguagem que a tradição foi usando para lidar com estas questões... uf, até cansa só de reler isto; pego, no entanto, em algo que a zu disse e que à sua maneira dizem o que pode estar em jogo; por um lado, há que remar, há que trabalhar, há que superar o sofrimento, mas esse trabalho, esse sofrimento, é sempre superado com ajuda externa; por vezes, não a vemos, mas ela está lá; vou deixar o modo como isto acontece com os nossos filhos; e isto porque estamos tão agarrados a eles, que não é fácil perceber que quando as coisas lhes correm bem, alguém que não nós lhes põe a mão por baixo; que quando as coisas lhes correm mal, a esperança que sentimos não advém do que podemos pensar, porque quando pensamos o mal que eles sofrem, dificilmente por nosso próprio esforço seríamos capazes de fazer nascer em nós essa esperança; mais fácil, parece-me pensar as encruzilhadas em que encontramos os que amamos; se parece depender de nós estamos abertos para o encontro, não depende de nós a construção do café, do bar, mesmo - por estupido que pareça dizer isto - que alguém os tenha feito e que outros alguéns os tenha trazido até nós disponíveis para o amor... e chega:)

5:05 da tarde  
Blogger miss caipira said...

Gostava de escrever assim como tu. Em relação ao conteudo, posso não concordar totalmente, mas é um belo pensamento

9:45 da manhã  
Blogger Bastet said...

Sim a-bordo, a fé e a protecção aquando do confronto com o mal. Este mal exterior a Deus - o confronto entre bem e mal e Deus só nos trás o bem. E o mal combate-se com dor e sofrimento e Deus, que tudo pode, auxilia-nos. Porque não evita Ele que esse mal nos aconteça? Bem sei que algures num Éden distante se trincou uma maçã, que existe o livre arbítrio e que esta terra não terá ficado nas Suas mãos... mas...?

10:16 da tarde  
Blogger a-bordo said...

para quem não anda com grande vontde de falar nestas coisas, farto-me de falar. mas enfim... porque deixa que aconteça o mal? - a primeira coisa a dizer, depois de lermos Job, é que de todo não sabemos; a segunda coisa a dizer, através da leitura de Job, é que o pouco que sabemos diz-nos que é esse um modo pelo qual ELe nos deixa ser quem somos; o modo como reagiamos ao mal - e ao bem, diga-se de passagem, e coisa que muitas vezes é esquecida - é aquilo que nos define; eu sei, também o faço, vezes de mais, diga-se de passagem, que arrancamos cabelos perante a doença, a ingratidão ou a injustiça e por isso nos apetece a história de Buda, antes de caminhar para o mundo: uns pais maravilhosos, um palácio dourado, uma esposa amantíssima, comer ananás e camarão; à volta lótus e papoilas; mas esses são apenas momentos em que outro alimento nos falta: o que nos dá a capacidade de não ficarmos agarrados ao mal que nos fazem; e, já agora, que nos livre do vício com que gozamos o mal que produzimos... um beijo.

2:17 da manhã  
Blogger Bastet said...

Lá está! (desculpa fazer-te falar...) "É o modo pelo qual Ele nos deixa ser quem somos" e como reagimos ao mal - porque isto nos define. Não nos descabelarmos perante a doença. vamos no sentido do post. a utilidade de mal. Um beijo :)

11:05 da manhã  
Blogger lena said...

aceitar aceitar aceitar

:*

11:38 da manhã  
Blogger forass said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

12:40 da tarde  
Blogger forass said...

E que tal fazer "desporto" "fitness" porque se gosta e não porque é uma indicação divina, ou do médico?

12:42 da tarde  
Blogger Bastet said...

Pois Formiga lá vens tu com as miúdas giras lá do teu ginásio... :)

12:42 da tarde  
Blogger . said...

Eu acho muita graça à malta com fé. Muita fé, muita fé, mas depois andam sempre à rasca. E com dúvidas, que é uma coisa espantosa para quem tem fé (digo eu, que não percebo nada destas coisas!). Em tempos ouvi esta expressão fantástica - enfim, tinha que ser no Alentejo, terra de gente sábia e pouco religiosa - 'fia-te na Virgem e não corras ...' . Ah pois é... E ainda estou para perceber uma coisa: se acham que Deus é amor porque é que estão sempre a falar no raio do sofrimento?
AR

10:24 da tarde  
Blogger forass said...

Segundo o que consta, há que saber o que é o sofrimento, para depois saber o que é o amor. A passagem por este mundo é um estágio de sofrimento e o que está para além da vida terrena é onde se encontra a verdadeira razão da nossa existência, onde se encontra o amor. (WHAT’A FUCK?!?!? Ai que me dói o cabelo!!!)

10:34 da manhã  
Blogger Bastet said...

Toquem os sinos a rebate! O Formiga falou a sério! Acho eu....

11:24 da manhã  
Blogger Zu said...

Eu continuo a achar (e vou dizer isto em linguagem muito terra-a-terra e pouco teológica, mas eu cá tenho de pôr as coisas bem clarinhas e em termos simples para as conseguir entender - limitações minhas ;)) - continuo a achar, dizia, que Deus não anda por aí a fazer milagres a torto e a direito e a pedido nosso. Não me dá o euromilhões só porque eu peço (e ainda por cima não jogo, seria mesmo um milagre!) e deixa ao acaso a escolha dos número do totoloto, não satisfazendo o nosso pedidozito. Não nos livra de doenças, deixa a natureza seguir o seu curso sem demasiadas intervenções. Não é a Ele que cabe resolver os nossos problemas. Mas pode ser n'Ele que encontramos a força para caminhar, para agir, para sermos nós a fazer o milagre acontecer.
E também não gosto nada da ideia da vida como um vale de lágrimas, tão cara aos tempos medievais em que a oração da "Salve Rainha" surgiu. A alegria, o bom humor, as coisas pequeninas e belas da vida são o que lhes dá cor e sentido e nos deve encher o coração. O sofrimento existe, claro, todos temos a nossa dose dele - mas não façamos dele o centro da nossa vida, ele não é um valor em si nem um objectivo. É um mal necessário, quando muito.

12:59 da tarde  
Blogger Zumbido said...

Há muitos anos que perdi o hábito de juntar a variável Deus às minhas equações. E com isso perdi também o hábito de diagnosticar sinais de Deus onde quer que fosse. Apesar disso nunca consegui olhar para os textos que referem Deus como puras ficções porque para as puras ficções há um acordo de cavalheiros em que todos fazemos de conta que a ficção não é ficção.
Mas o teu texto não é ficção. Para além da sua pura beleza - esta música de palavras que te sai sempre que tocas no teclado - há um sentimento vivo que o faz mostrar, ainda que elididos, os sinais de sangue. Reli e reli, e ainda não tinha relido tantas vezes um texto teu, e ao trocar uma palavra passei a aceitá-lo quase sem reservas: no lugar de 'mal' li 'sofrimento'...

Esta dose diária de beleza escrita torna-se viciante para quem lê.

3:56 da tarde  
Blogger Bastet said...

Diria Zu que concordo em parte com o que dizes. O mal existe e não faria, não faço, dele o centro de nada, nem a expiação de nada mas, na tentativa de lhe encontraramos um sentido, não significa que não o combatamos ou que nos resignemos a ele. Pelo contrário, a existir um sentido para o mal seria precisamente o de pormos à prova as nossas capacidades de o combatermos e de reagirmos com fé. Mas custa-me aceitar esse Deus "laissez faire laissez passer", sem nenhuma intervenção que tu descreves. Isso faria d´Ele um Deus desinteressado e desinteressante. Não se encontra força em quem não tem capacidade para nos ajudar a resolver os problemas e muito menos em quem a tendo não os resolve.

4:02 da tarde  
Blogger Zu said...

Percebo-te, Bastet. Mas não consigo encaixar o Deus que nos carrega voluntariamente com uma carga de sofrimento para ver como nós nos safamos da provação com a ideia de um Deus que é Pai e que é Amor. Um Pai alija o fardo dos filhos, não lhe mete mais uns quilos em cima. Um Pai faz pequeninos e invisíveis milagres para aliviar o sofrimento em que não intervém. Apesar de, naturalmente, poder intervir, porque é Deus. Porque é que umas vezes o faz e outras não? Não sei. Porque é que uma pessoa se salva de uma tragédia como o tsunami e outra morre? Não sei. Foi Deus quem salvou? E porquê essa salvação selectiva? É-me difícil acreditar num caminho traçado por Ele para cada um de nós, se nascemos dotados de liberdade. Entendê-lo como o Criador que deixou o seu mundo governar-se sem demasiadas intervenções, porque nos criou livres para agirmos por nós mesmos, é a forma muito prosaica (e muito pessoal, e quase de certeza cheia de erros do ponto de vista da teologia cristã) que tenho de dar sentido a isto tudo. À vida, às desgraças, aos problemas. E à alegria, à felicidade, ao amor.

4:30 da tarde  
Blogger Bastet said...

Também eu tenho dificuldade em entender um Deus que carregue a máquina com pesos e por vezes tão pesados. Daí o Talvez inicial do post. Um Pai alija o fardo dos seus filhos é certo. E por vezes deixa-o bater com a cabeça na parede para que veja como dói para logo de seguida lhe tratar do "galo"...Fica por resolver tanta coisa... Porque não pode Ele evitar todo o mal?

5:04 da tarde  
Blogger Zu said...

Pergunta aos "teólogos" da blogosfera :)) Mas desconfio que eles também não sabem.
O que eu sei é que não consigo imaginar o mundo sem Deus. Que esse Deus seja o cristão, tenho muitas dúvidas. O AR acha que ter dúvidas parece contradizer a fé - eu acho que é uma condição para a aprofundar. Mas também pode ser meio caminho para a abandonar. O meu Deus não precisa dos enfeites e das teorias teológicas complicadas que as religiões instituídas fornecem. Um pouco como não é nas igrejas ricamente decoradas que eu sinto a presença do divino.
(Acho que estou a ficar cada vez menos católica, e se calhar continuo a proferir barbaridades / heresias - mas valha em minha defesa o facto de ser sincera)

11:05 da tarde  
Blogger Bastet said...

Muito querido Zumbido: Mais uma vez para te dar razão, onde se lê mal deveria ler-se sofrimento. É esse de facto o sentido da palavra e do post. Obrigada, de resto como sempre. :)

12:22 da tarde  
Blogger forass said...

Só às vezes Bastet, só às vezes! :)
A vida não pode ser levada muito a sério. ;)

2:37 da tarde  
Blogger Bastet said...

Olha a quem o dizes caro Formiga! :) :) :)

3:25 da tarde  

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