terça-feira, maio 03, 2005

a bordo

Naquele fim de tarde saíram do Monte da Lua em direcção à praia. Deixaram as vassouras e os pós de perlim pim pim e subiram para o eléctrico entre risos e conversas próprias de passeata. Uma vez em cada ano abandonavam na Serra as suas moradas e misturavam-se com as gentes e o casario. Bruxas, fadas, gnomos, ogres e duendes, aperaltavam-se domingueiramente e acomodavam-se nos assentos, desfrutando pelas janelas a paisagem. Ao contrário do que rezava a lenda não havia dia certo para este evento. A verdade é que nem sempre era fácil ajustar as agendas mais ou menos preenchidas e ainda mais difícil era conjugar os humores e as vontades. Cada qual com seu capricho e superstição apontava uma data mais favorável. Reuniam-se datas e consensos na clareira junto à Peninha o que, regra geral, implicava toda uma longa noite de acesa discussão. Um porque tinha poção a meio que estava a fermentar, outro porque o encantamento das árvores não podia ser suspenso, alguns porque eram alérgicos aos pólens, outros porque a lua não era a mais propícia. Em tempos idos, tinham adoptado uma solução chamada de democrática mas que se veio a revelar muito pouco eficiente já que era sempre o mesmo grupo que levava a dele avante. Em reforço deste facto, vinham os pobres duendes que, minoritários, se viam quase sempre forçados a aderir à passeata pelo início de Abril o que, estava provado, lhes era prejudicial à frágil compleição.
Para solucionar esta e outras questiúnculas de vizinhança formaram um Colégio de Conselheiros que reunia os mais doutos representantes de cada classe existente e ao qual competia tomar decisão sobre os assuntos da comunidade mágica. Desde então, salvaguardadas as opiniões e as argumentações de cada um, o Conselho deliberava com sabedoria.
Apontado que ficara o dia três de Maio reservaram o eléctrico com a devida antecedência e fizeram-se ao caminho. Há já muito que verificavam que os humanos se entristeciam gradualmente e que mesmo as crianças, outrora tão aderentes à sua presença, os olhavam com cepticismo e descrédito. Estava isto por certo relacionado. A perda da fé no maravilhoso, deixava um vazio de difícil preenchimento. Por diversas vezes planeavam pequenas demonstrações de magia, aparições mais ou menos regulares, tentando recuperar o que parecia irrecuperável. Certo era que este efeito tinha drásticas repercussões nos seus poderes que se alimentavam da fé que neles faziam. Por esta fortíssima razão iam anualmente à Praia das Maçãs onde o mar se juntava com o vento e com as encostas para ali oferecerem as suas preces à Humanidade. Sabiam que as suas palavras seriam levadas pelas ondas até chegarem a algum coração onde se depositava a semente da magia. Então essa semente germinava e dava vida a personagens fantásticas e a sonhos diversos que, com sorte, se espalhariam pelos demais. Este ano, levavam ainda outra missão. Quando chegados à praia, em roda de mãos e almas, agradeceriam a semente fértil que, a bordo, lhes trouxera de novo a força, a magia e a coragem.

6 Comments:

Blogger vague said...

Sabes que Sintra está no meu imaginário como um lugar belo e de encantar? E mesmo à luz crua do dia é para mim um lugar mágico onde ainda tenho família e onde me ligam afectos vários. A Praia das Maçãs, S. Pedro, a vila de Sintra de semana de inverno e com pouca gente, as compras de Natal feitas naquelas lojinhas pequenas (e caras!).

Este teu texto é surpreendente. Fadas, gnomos, coragem, amor, tudo misturado numa história com um fio condutor muito próprio. Não costuma ser do meu género habitual mas estranhamente gostei de ler. E fui tb 'a bordo' ler um blog novo para mim.
(Bastet, tenho é de imprimir os teus textos, são tão longos e densos e cheios q merecem uma leitura mais atenta e de papel na mão - ando a pensar a fazer isso em r/ a vários bloggers, mas o tempo escoa-se-me por entre os dedos, tanta solicitação e uma pessoa detém-se no rápido, no instantâneo, no que não faz pensar muito.
Isto só para dizer q os teus textos merece estar em maior destaque, sem favor.

A magia (o amor é magia para mim) a coragem e o amor são palavras que (me) inspiram.

9:01 da tarde  
Blogger Bastet said...

:) além dos elogios que me diriges fico ainda satisfeita por te ter levado "a bordo" de um blog que eu acho muito especial e que, como já confessei, é o meu blog de eleição. Quanto à magia de Sintra já sabes que os travesseiros pecaminosos esperam por ti ;)

10:00 da tarde  
Blogger Bastet said...

vague: mais uma coisa que eu sei que entenderás - o amor é de facto magia e cura e, mesmo quando é inverso o caminho que apetece, é este o caminho a trilhar. O amor e o respeito ao próximo são o que nos distinguem e fazem de nós Pessoas. Um beijo grande para ti.

10:04 da tarde  
Blogger a-bordo said...

o conto é muito bonito... e que mais posso dizer: obrigado, muito obrigado!

2:26 da manhã  
Blogger Bastet said...

Ainda bem que gostaste e sempre te fez utilizar o sistema de comentários aqui da "loja das porcelanas" lol!!!

10:58 da manhã  
Blogger a-bordo said...

é verdade: o "sempre te fez" foi mesmo assim.

5:23 da tarde  

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