terça-feira, abril 19, 2005

cenas de amor

Pelos intervalos anunciados com estridência pela descarada campaínha rouca da escola, saiam para o recreio de mão dada. Acreditavam no destino, qualquer coisa que assim é porque é assim que deve ser ou qualquer coisa que será porque o fruto dela já trazia semente. Não que importasse verdadeiramente perceberem se as mãos se uniam por um propósito ou se, na ausência despropositada de razão justificativa, as mãos se entrelaçavam com vida própria. Talvez a sede de dedos semelhantes e conhecidos as levasse à união ou então, pura e simplesmente, porque se descobriam unidas em encaixe perfeito antes que a razão fosse levada a achar qualquer coisa sobre o assunto. Seja assim ou de outra forma, balançavam as mãos em jeito de passeio que o tempo não dava para grandes considerações. Dava o tempo para outras coisas, para se aperceberem da sua escassez, de como eram curtos os intervalos entre toques roucos e estridentes da desafinada campaínha e como as mãos entrelaçadas sofriam ao desenlace forçado. Creio que já era muda a campaínha e ainda as mãos se davam e desdavam da mesma forma, no mesmo ritual, como se ainda no silêncio dos intervalos adivinhados partissem juntas para o recreio. Não sei, no entanto, se por milagre, foi a mesma campaínha que ouvi soar, rouca e descarada, quando uma longa vida depois, quis o destino ou o fruto da sua semente, a morte fazê-las separar.

6 Comments:

Blogger AleKsandro said...

São, no mínimo, desconcertantes, as imagens sugeridas por este texto. Sinto uma grande dicotomia que, alternadamente, vai da mais pueril alegria à mais adulta tristeza. Será impressão minha?

11:48 da manhã  
Blogger Bastet said...

Olá! Não é impressão tua, a verdade é que a tristeza é de facto bem adulta tal como a maturidade de nela conseguirmos encontrar alguma beleza. Obrigada. :)*

11:58 da manhã  
Blogger AleKsandro said...

Não, não! Combate isso, por favor! Eu tento fazê-lo diariamente. Não é sinal de maturidade encontrar beleza na tristeza. É sinal de estarmos conformados com ela. E se escrevo por vezes coisas triste é como um exorcismo. Xô, xô!

12:54 da tarde  
Blogger Bastet said...

Concordo! :) também prefiro a alegria da alegria e a beleza que nesta verdadeiramente reside!

12:55 da tarde  
Blogger The Challenger said...

A beleza da alegria reside neste preciso instante no rosto delicado e resplandecente desta pequena belezinha que aqui está comigo e que procura os meus olhos só para me sorrir!

6:42 da tarde  
Blogger Bastet said...

Com que então a namorar a maninha? :)

7:52 da tarde  

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