quarta-feira, fevereiro 16, 2005

no nicho

Fui, por breves momentos, dona do céu e dos seus altares. Aos pés do deus único quis por ele ser perfeita. E fui tão perfeita quanto se pode ser perfeita. Mas os deuses não são perfeitos. Só se deixam adorar. Cobri-o de linho e seda. Dei-lhe água e vinho a provar. Falei-lhe de amor. Ensinei-lhe o presente e o futuro. Contei-lhe histórias de embalar. Desci-o do altar e amei-o o melhor que se pode amar. Mas os deuses não são homens. Não sabem viver na terra. A espaços tornei-me triste. Incompleta. Não é este o amor que quer uma mulher. Procurei um corpo mais humano e quis deixar-me adorar. Puseram-me num altar. Cobriram-me de linho e seda. Deram-me água e vinho a provar. Falaram-me de amor. Contaram-me histórias de embalar. Do presente e do futuro já não sei o que dizer. Nada tenho para ensinar. Trouxe comigo a maldição de ter sido purificada. Depois de ser perfeita já não posso ser mulher nem como mulher ser amada. Por amor ao deus único que não se deixa por mim amar, perdi talvez o condão de me querer deixar adorar. Fiz um nicho entre o céu e a terra, entre o deus e os demais e fico aqui resguardada, a medo defendida, por já não ser mulher nem perfeita, por maldição assim dividida.

3 Comments:

Blogger AmigaTeatro said...

:)

8:44 da tarde  
Blogger Barão d'Holbster said...

Desculpa, mas não tens razão para não ser mulher. Os deuses só servem para nos refugiarmos...

9:12 da tarde  
Blogger Bastet said...

Querido Barão: Este deus tem pés de barro e ninguém nele se refugia... foi antes ele que em mim se refugiou.

10:14 da tarde  

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