quinta-feira, outubro 07, 2004

à força de luta


Naquele dia de chuva sentar-se-ia no cais. A solidão encharcava-lhe a alma que quase afogada lhe morria aos poucos. Terapia de choque - dizia ela - invejando secretamente os que se podiam entregar ao namoro do sofrimento. Até a vigília da dor é só para alguns! Na falta de amor maior, que lhes faça cuspir a mágoa e seguir em frente, dão-se por inteiro ao seu torpor. Nunca entendera a justiça que presidia à repartição dos risos mas era sábia no entendimento dos esgares alheios. Com a cabeça enterrada nos joelhos, vencia-a o desalento como anestesia de morte. Fina, a dor da raiva, como farpa do orgulho moribundo, tomaria lentamente o seu lugar até que imensa e redonda lhe explodiria em grito de vida. Não há certo nem errado, nobreza maior ou menor entre raiva e desalento. Há a luta da sobrevivência e o destino mordaz que faz vergar os ombros mais fortes à sua crueldade. Há a alma que rasgando por dentro a lama que a soterra, vem à tona do corpo à força de luta, num dia de chuva num cais qualquer.

1 Comments:

Blogger cuca said...

Não existe de facto amor em paz...
vem sempre acompanhado de agonias, êxtases, alegrias intensas e tristezas profundas, muitas vezes traduzidas em desilusões.

1:04 da tarde  

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